Elcio R. Lima

Site pessoal do Prof. Elcio.

ÉTICA GERAL E EMPRESARIAL

“Difícil não é fazer o que é certo, é descobrir o que é certo fazer.”

Robert Henry Srour

UMA QUESTÃO DE ATITUDE

A diferença entre os países pobres e os ricos não é a idade do país. Isto pode ser  demonstrado por países como Índia e Egito, que tem mais de 2000 anos e são pobres.

Por outro lado, Canadá, Austrália e Nova Zelândia, que há 150 anos eram inexpressivos, hoje são países desenvolvidos e ricos.

A diferença entre países pobres e ricos também não reside nos recursos naturais disponíveis.

O Japão possui um território limitado, 80% montanhoso, inadequado para a agricultura e a criação de gado. Mas é a segunda economia mundial.

O país é como uma imensa fábrica flutuante, importando matéria–prima do mundo todo e exportando produtos manufaturados.

Outro exemplo é a Suíça, que não planta cacau, mas tem o melhor chocolate do mundo. Em seu pequeno território, cria animais e cultiva o solo durante apenas quatro meses no ano. Não obstante, fabrica laticínios da melhor qualidade. É um país pequeno que passa uma imagem de segurança, ordem e trabalho, o que o transformou no caixa forte do mundo.
Executivos de países ricos que se relacionam com seus pares de países pobres mostram que não há diferença intelectual significativa.
A raça ou a cor da pele, também não são importantes: imigrantes rotulados de preguiçosos em seus países de origem são a força produtiva de países europeus ricos.
Qual será então a diferença?
A diferença é a atitude das pessoas, moldada ao longo dos anos pela educação e pela cultura. Ao analisarmos a conduta das pessoas nos países ricos e desenvolvidos, constatamos que a grande maioria segue os seguintes princípios de vida:
A ética, como princípio básico. A integridade. A responsabilidade. O respeito às leis e regulamentos. O respeito pelo direito dos demais cidadãos. O amor ao trabalho. O esforço pela poupança e pelo investimento. O desejo de superação. A pontualidade.
Nos países pobres, apenas uma minoria segue esses princípios básicos em sua vida diária.
Não somos pobres porque nos faltam recursos naturais ou porque a natureza foi cruel conosco.
Somos pobres porque nos falta atitude. Falta-nos vontade para cumprir e ensinar esses princípios de funcionamento das sociedades ricas e desenvolvidas. Está em nossas mãos tornar o nosso país um lugar melhor para viver.
Deus já nos deu um clima tropical, belezas naturais em abundância, um solo rico e uma imensa criatividade. Basta somente que acionemos os nossos esforços para colocar em prática os itens relacionados.

Por isso, comece cumprindo todos os seus deveres, com pontualidade e zelo. Trabalhe com entusiasmo, vencendo as horas. Conheça e respeite as leis, não as utilizando para usufruir vantagens pessoais. Cuide do patrimônio público, consciente de que o que mantém o município, o estado e o país somos nós.
Quando se destroem ônibus, quando se picham monumentos públicos, quando se roubam livros nas bibliotecas públicas, lembremos que somos nós que pagamos a conta.
São os nossos impostos que mantêm a cidade limpa, as praças em condições de serem usufruídas pelos nossos filhos, as escolas e os hospitais funcionando.
Também não esqueçamos que os homens públicos, do vereador de nossa cidade ao presidente da república estão a nosso serviço.
Contudo, e muito importante, lembremos que somos exatamente nós os que devemos ter olhos e ouvidos atentos à administração pública, cobrando resultados, sim, mas colaborando, eficazmente. Porque ninguém consegue fazer nada sozinho. Mas, uma nação unida vence a fome, a guerra, as condições adversas.
Nós precisamos vencer o descaso e investir na educação individual, objetivando um cidadão consciente e atuante. E a educação inicia, em princípio, em nós mesmos.

É assim que o Brasil será melhor: quando nós quisermos!

************************
Com base texto do poeta Avaniel Marinho, intitulado “A riqueza e a pobreza das nações”, encontrável no site: http://www.avanielmarinho.com.br/artigos/artigo2.htm

1 – A ÉTICA GERAL

1.1 – INTRODUÇÃO

Certamente não é coincidência nem modismo a demanda da sociedade por comportamentos éticos. A exigência de ética na política, no direito, na informática, na administração, na medicina, em contábeis, na agronomia, bem como a rejeição unânime da corrupção em suas diferentes modalidades, significa a busca de qualidade de vida, passando pela necessidade de formação ética dos indivíduos e, conseqüentemente, por uma sociedade regida por comportamentos éticos.

O conceito de ética e moral, embora sejam diferentes, são, com freqüência, usados como sinônimos. Aliás, a etimologia dos termos é semelhante: moral vem do latim mos (no plural moris) que significa “maneira de se comportar regulada pelo uso”, daí “costume”, e de moralis, ou morale, adjetivo referente ao que é “relativo aos costumes”. Ética vem do grego ethos, que tem o mesmo significado de “costume”.

Ética é o estudo de juízos de apreciação referente à conduta humana suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, relativamente de uma determinada sociedade. Em sentido mais amplo, a moral é o conjunto das regras de conduta admitidas em determinada época ou por um grupo de homens. Nesse sentido, o homem moral é aquele que age bem ou mal na medida em que acata ou transgride as regras do grupo.

O homem é um ser social, pois vive em sociedade. Num sentido mais amplo, sociedade é a reunião de seres que vivem em grupo. Num sentido mais restrito, sociedade é o conjunto de pessoas que vivem em determinada faixa de tempo e de espaço – seguindo normas comuns – e que são unidas pelo sentimento de consciência de grupo.

A partir da constatação de que vivemos em sociedade, encontramos regras, leis e normas que regulam as relações entre os homens. Estas são necessárias, pois a sociabilidade humana, a convivência dos homens em sociedade, precisa acontecer dentro de uma certa ordem. A ordem humana é artificial.  O homem não a recebe pronta, como herança genética. Ele tem que inventá-la, construí-la; dar-lhe uma forma satisfatória ao atendimento de suas necessidades de aspirações, que mudam ao longo da história. Por isso mesmo na sociedade atual, a ordem é tão diferente daquela vivida pelos homens na antiguidade.

Depois de inventada uma certa ordem (regra), reconhecida como justa e verdadeira para uma determinada época, são os homens que julgam seus próprios comportamentos, e os dos outros, avaliando se estão de acordo ou contra o que está estabelecido.

Falar sobre ética é falar sobre valores e virtudes. Valor e virtude por sua vez, se referem a comportamento humano. Então o campo ético é constituído, de um lado, por comportamentos e, do outro, por juízo de valor, pela apreciação sobre esses comportamentos.

A reflexão ética passa justamente por essa questão: o estabelecimento de juízos de valores para o que está conforme ou contrário às normas de convivência dos homens em sociedade. Daí serem tão comuns as expressões: ético e antiético, quando nos referimos a certas atitudes dos indivíduos em sociedade.

1.2 – MAS AFINAL, O QUE É ÉTICA?

A ética está presente em todas as raças. Ela é um conjunto de regras, princípios  ou maneira de pensar e expressar. Ética é uma palavra de origem  grega com duas traduções possíveis: costume e propriedade de caráter.

Ser ético nada mais é do que agir direito,  proceder bem, sem prejudicar os outros. É ser altruísta, é estar tranqüilo com a consciência pessoal. É cumprir com os valores da sociedade em que vive, onde mora, trabalha, estuda etc.

Ética é tudo que envolve integridade, como ser honesto em qualquer situação, ter coragem para assumir seus erros e decisões, ser tolerante e flexível, ser humilde.

Todo ser ético reflete sobre suas ações, pensa se está fazendo o bem ou o mal para o seu próximo. É ter a “consciência  limpa”.

1.3 – MORAL X ÉTICA

Define-se moral como um conjunto de normas, princípios, preceitos, costumes, valores que norteiam o comportamento do indivíduo no seu grupo social. Moral e ética não devem ser confundidos: enquanto a moral é normativa, a ética é teórica, e buscando explicar e justificar os costumes de uma determinada sociedade, bem como fornecer subsídios para a solução de seus dilemas mais comuns. Porém, deve-se deixar claro que etimologicamente “ética” e “moral” são expressões sinônimas, sendo a primeira de origem grega, enquanto a segunda é sua tradução para o latim.

A ética também não deve ser confundida com a lei, embora com certa freqüência a lei tenha como base princípios éticos. Ao contrário do que ocorre com a lei, nenhum indivíduo pode ser compelido, pelo Estado ou por outros indivíduos, a cumprir as normas éticas, nem sofrer qualquer sanção pela desobediência a estas; por outro lado, a lei pode ser omissa quanto a questões abrangidas no escopo da ética.

Modernamente, a maioria das profissões têm o seu próprio código de ética profissional, que é um conjunto de normas de cumprimento obrigatório, derivadas da ética, freqüentemente incorporados à lei pública. Nesses casos, os princípios éticos passam a ter força de lei; note-se que, mesmo nos casos em que esses códigos não estão incorporados à lei, seu estudo tem alta probabilidade de exercer influência, por exemplo, em julgamentos nos quais se discutam fatos relativos à conduta profissional. Ademais, o seu não cumprimento pode resultar em sanções executadas pela sociedade profissional, como censura pública e suspensão temporária ou definitiva do direito de exercer a profissão.

Tanto “ethos” (caráter) como “mos” (costume) indicam um tipo de comportamento propriamente humano que não é natural, o homem não nasce com ele como se fosse um instinto, mas que é “adquirido ou conquistado por hábito”. (VÁZQUEZ). Portanto, ética e moral, pela própria etimologia, diz respeito a uma realidade humana que é construída histórica e socialmente a partir das relações coletivas dos seres humanos nas sociedades onde nascem e vivem.

1.4 – A ÉTICA COMO DOUTRINA

Como Doutrina Filosófica, a Ética é essencialmente especulativa e, a não ser quanto ao seu método analítico, jamais será normativa, característica esta, exclusiva do seu objeto de estudo, a Moral. Portanto, a Ética mostra o que era moralmente aceito na Grécia Antiga possibilitando uma comparação com o que é moralmente aceito hoje na Europa, por exemplo, indicando através da comparação, mudanças no comportamento humano e nas regras sociais e suas conseqüências, podendo daí, detectar problemas e/ou indicar caminhos. Além de tudo ser Ético é fazer algo que te beneficie e, no mínimo, não prejudique o “outro”.

Eugênio Bucci, em seu livro Sobre Ética e Imprensa, descreve a ética como um saber escolher entre “o bem” e “o bem” (ou entre “o mal” e “o mal”), levando em conta o interesse da maioria da sociedade. Ao contrário da moral, que delimita o que é bom e o que é ruim no comportamento dos indivíduos para uma convivência civilizada, a ética é o indicativo do que é mais justo ou menos injusto diante de possíveis escolhas que afetam terceiros.

1.5 – A VIVÊNCIA ÉTICA

A ética pode ser interpretada como um termo genérico que designa aquilo que é freqüentemente descrito como a “ciência da moralidade“, seu significado derivado do grego, quer dizer ‘Casa da Alma’, isto é, suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente a determinada sociedade, seja de modo absoluto.

Em Filosofia, o comportamento ético é aquele que é considerado bom, e, sobre a bondade, os antigos diziam que: o que é bom para a leoa, não pode ser bom à gazela. E, o que é bom à gazela, fatalmente não será bom à leoa. Este é um dilema ético típico.

Portanto, de investigação filosófica, e devidas subjetividades típicas em si, ao lado da metafísica e da lógica, não pode ser descrita de forma simplista. Desta forma, o objetivo de uma teoria da ética é determinar o que é bom, tanto para o indivíduo como para a sociedade como um todo. Os filósofos antigos adotaram diversas posições na definição do que é bom, sobre como lidar com as prioridades em conflito dos indivíduos versus o todo, sobre a universalidade dos princípios éticos versus a “ética de situação”. Nesta, o que está certo depende das circunstâncias e não de uma qualquer lei geral. E sobre se a bondade é determinada pelos resultados da ação ou pelos meios pelos quais os resultados são alcançados.

O homem vive em sociedade, convive com outros homens e, portanto, cabe-lhe pensar e responder à seguinte pergunta: “Como devo agir perante os outros?”. Trata-se de uma pergunta fácil de ser formulada, mas difícil de ser respondida. Ora, esta é a questão central da Moral e da Ética. Enfim, a ética é julgamento do caráter moral de uma determinada pessoa.

1.6 – UMA VISÃO GERAL

A ética tem sido aplicada na economia, política e ciência política, conduzindo a muitos distintos e não-relacionados campos de ética aplicada, incluindo: ética nos negócios e Marxismo.

Também tem sido aplicada à estrutura da família, à sexualidade, e como a sociedade vê o papel dos indivíduos, conduzindo a campos da ética muito distintos e não-relacionados, como o feminismo e a guerra, por exemplo.

A visão descritiva da ética é moderna e, de muitas maneiras, mais empírica sob a filosofia Grega clássica, especialmente Aristóteles.

Inicialmente, é necessário definir uma sentença ética, também conhecido como uma afirmativa normativa. Trata-se de um juízo positivo ou negativo (em termos morais) de alguma coisa.

2 – ÉTICA NO RELACIONAMENTO HUMANO

 

2.1 – INTRODUÇÃO: [A ÉTICA E A PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO (Mario Sergio Cortella)]

Ressaltemos desde o início: a ética é uma questão absolutamente humana! Só se pode falar em ética quando se fala em humano, porque a ética tem um pressuposto: a possibilidade de escolha. A ética pressupõe a possibilidade de decisão, ética pressupõe a possibilidade de opção.

É impossível falar em ética sem falar em liberdade. Quem não é livre não pode, evidentemente, ser julgado do ponto de vista da ética. Outros animais, ao menos nos parâmetros que utilizamos, agem de forma instintiva, não deliberada, sem uma consciência intencional. Cuidado. Há quem diga: “Eu queria ser livre como um pássaro”; lamento profundamente, pois pássaros não são livres, pássaros não podem não voar, pássaros não podem escolher para onde voam, pássaros são pássaros. Se você quiser ser livre, você tem de ser livre como um humano. Pensemos em algo que pode parecer extremamente horroroso: como disse Jean-Paul Sartre, nós somos condenados a ser livres.

Da liberdade, vêm as três grandes questões éticas que orientam (mas também atormentam, instigam, provocam e desafiam) as nossa escolhas: Quero? Devo? Posso? Retomemos o cerne: o exercício da ética pressupõe a noção de liberdade. Existe alguém sobre quem eu possa dizer que não tem ética? É possível falar que tal pessoa “não tem ética”? Não, é impossível. Você pode dizer que ele não tem uma ética como a tua, você pode dizer que ele tem uma ética com a qual você não concorda, mas é impossível dizer que alguém não tem ética, porque ética é exatamente o modo como ele compreende aquelas três grandes questões da vida: devo, posso, quero?

Tem coisa que eu devo mas não quero, tem coisa que eu quero mas não posso, tem coisa que eu posso mas não devo. Nessas questões, vivem os chamados dilemas éticos; todas e todos, sem exceção, temos dilemas éticos, sempre, o tempo todo: devo, posso, quero? Tem a ver com fidelidade na sua relação de casamento, tem a ver com a sua postura como motorista no trânsito; quando você pensa duas vezes se atravessa um sinal vermelho ou não, se você ocupa uma vaga quando vê à distância que alguém está dando sinal de que ele vai querer entrar; quando você vai fazer a sua declaração de Imposto de Renda; quando você vai corrigir provas de um aluno ou de um orientando seu; quando você vai cochilar depois do almoço, imaginando que tem uma pia de louça que talvez seja lavada por outra pessoa, e como você sabe que ela lava mesmo, e que se você não fizer o outro faz, você tem a grande questão ética que é: devo, posso, quero? Por exemplo, quando se fala em bioética: podemos lidar com clonagem? Podemos, sim. Devemos? Não sei. Queremos? Sim. Clonagem terapêutica, reprodutiva? É uma escolha. Posso eu fazer um transplante intervivos? Posso. Devo, quero? Tem coisa que eu devo, mas não quero; aliás, a área de Saúde, de Ciência e Medicina, é recheada desses dilemas éticos. Tem muita coisa que você quer, mas não pode, muita coisa que você deve, mas não quer.

Na pesquisa, já imaginou? Por que montamos comitês de pesquisa, por que a gente faz um curso sobre ética na pesquisa? Porque isso é complicado, e se fosse uma coisa simples, a gente não precisava fazer curso, não precisava estudar, não precisava se juntar. É complicadíssimo, porque estamos mexendo com coisas que têm a ver com a nossa capacidade de existir. Quando se pensa especialmente no campo da ética, a relação com a liberdade traz sempre o tema da decisão, da escolha. Por que estou dizendo isso? Porque não dá para admitir uma mera repetição do que disseram muitos dos generais responsáveis pelo holocausto e demais atrocidades emanadas do nazismo dos anos de 1940. Exceto um que assumiu a responsabilidade, todos usaram o mesmo argumento em relação à razão de terem feito o que fi zeram. Qual foi? “Eu estava apenas cumprindo ordens”. “Estava apenas cumprindo ordens”, isso me exime da responsabilidade? Estava apenas obedecendo… Essa é uma questão séria, sabe por quê? Porque “estava apenas cumprindo ordens” implica a necessidade de pensarmos se a liberdade tem lugar ou não.

Ética tem a ver com liberdade, conhecimento tem a ver com liberdade, porque conhecimento tem a ver com ética. Por isso, se há algo que também é fundamental quando se fala em ciência, ética na pesquisa e produção do conhecimento, é a noção de integridade. A integridade é o cuidado para se manter inteiro, completo, transparente, verdadeiro, sem máscaras cínicas ou fissuras. Nessa hora, um perigo se avizinha: assumir-se individual ou coletivamente uma certa “esquizofrenia ética”. Ela desponta quando as pessoas se colocam não como inteiras, mas repartidas em funções que pareceriam externas a elas. Exemplos? “Eu por mim não faria isso, mas, como eu sou o responsável, tenho de fazê-lo”. Ora, eu não sou eu e uma função, eu sou uma inteireza, eu não sou eu e um professor, eu e um pesquisador, eu e um diretor, eu e um Secretário, eu sou um inteiro. “Eu por mim não faria”, então eu não faço!

Cautela! Coloca-se um estilhaçamento da integridade: “Eu, por mim, não lhe reprovaria, mas como eu sou seu professor, eu tenho que reprovar”; “Eu, por mim, não lhe mandaria embora, mas como eu sou seu chefe…”; “Eu, por mim, não lhe suspenderia, mas como eu sou seu superior…”; “Eu, por mim, não faria isso, mas como eu sou o contador…”; “Eu, por mim, não faria isso, mas como eu sou o responsável pelo laboratório…”.: “Eu por mim não faria”, então eu não faço; “Eu por mim não lhe reprovaria”, então não reprovo. De novo: eu não sou eu e uma função, eu não sou eu e um pesquisador, eu e um chefe do laboratório, eu e um diretor de instituto, eu e um Secretário… O esboroamento da integridade pessoal e coletiva é a incapacidade de garantir que a “casa” fique inteira, e para compreender melhor a idéia de “casa íntegra”, vale fazer um breve passeio pelas palavras. Talvez as pessoas que estudaram um pouco de etimologia se lembrem que a palavra ética vem para nós do grego ethos, mas ethos, em grego, até o século VI a. C., significava morada do humano, no sentido de caráter ou modo de vida habitual, ou seja, o nosso lugar. Ethos é aquilo que nos abriga, aquilo que nos dá identidade, aquilo que nos torna o que somos, porque a sua casa é o modo como você é, onde está a sua marca. Mais tarde, esse termo para designar também o espaço físico foi substituído por oikos. Aliás, o conhecimento mais valorizado na sociedade grega era o que cuidava das regras da casa, para a gente poder viver bem e para deixar a casa em ordem. Como o vocábulo nomos significa “regra” ou “norma”, passou-se a ter a oikos nomos (a economia) como a principal ciência. No entanto, a noção original de ethos não se perdeu, pois os latinos a traduziram pela expressão more, ou mor, que acabou gerando para nós também uma dupla concepção; uma delas é “morada”, e a outra, que vai ser usada em latim, é o lugar onde você morava, o seu habitus. Olha só, a expressão “o hábito faz o monge” não tem a ver com a roupa dele, habitus; habitus é exatamente onde nós vivemos, o nosso lugar, a nossa habitação.

Quando se pensa em ética e produção do conhecimento hoje, a grande questão é: como está a nossa possibilidade de sustentar a nossa integridade; essa integridade, como se coloca? A integridade da vida individual e coletiva, a integridade daquilo que é mais importante, porque uma casa, ethos, tal como colocamos, é aquela que precisa ficar inteira, é aquela que precisa ser preservada. Como está a morada do humano? Essa morada do humano desabriga alguém? Alguém está fora da casa, alguém está sem comer dentro dessa casa? Alguém está sem proteção à sua saúde, alguém está sem lazer dentro dessa casa? Essa morada do humano é inclusiva ou é exclusiva? Essa morada do humano lida com a noção de qualidade em ciência, ou lida com a noção de privilégio? Cuidado. Duas coisas que se confundem muito em ciência são qualidade e privilégio; qualidade tem a ver com quantidade total, qualidade é uma noção social, qualidade social só é representada por quantidade total. Qualidade sem quantidade não é qualidade, é privilégio. São Paulo é uma cidade em que se come muito bem, é verdade; quem come, quem come o quê? Qualidade sem quantidade total não é qualidade, é privilégio. Todas as vezes que se discute essa temática, aparece a noção de uma qualidade restrita, e qualidade restrita, reforcemos, é privilégio. Nesse sentido, a grande questão volta: será que, na morada do humano, alguém está desabrigado? Será que essa casa está inteira, ela está em ordem nessa condição? Nessa nossa casa, quando a gente fala em cuidado, é o mesmo que falar em saúde; aliás, quando digo: “eu te saúdo”, ou, “queria fazer aqui uma saudação”, etimologicamente é a mesma coisa. Saudar é procurar espalhar a possibilidade de cuidado, de atenção, de proteção. Nossa casa, que casa é essa? Há nela saúde? A ética é a morada do humano; como essa casa é protegida? Qual é o lugar da ciência dentro dela? Qual é o papel que ela desempenha? Qual é a nossa tarefa nisso, para pensar exatamente aquelas três questões: posso, devo, quero?

É claro que essas questões e suas respostas não são absolutas, elas não são fechadas, elas são históricas, sociais e culturais. A mesma pergunta não seria feita do mesmo modo há vinte anos; a grande questão no nosso país há cento e cinqüenta anos, a grande questão ética há cento e cinqüenta anos era se eu podia açoitar um escravo e depois cuidar dele, ou só açoitá-lo e deixá-lo para ser cuidado pelos outros; se eu poderia extrair o dente de alguém, se é mais recomendável para o dentista que ele faça a extração ou que ele tente o tratamento. Há alguns anos, algumas décadas, uma discussão de natureza ética era algo que nem passaria pela cabeça de um dentista. A pessoa chegava ao seu consultório e dizia: “Eu quero que o senhor arranque todos os meus dentes”. Ele respondia: “Tá bom”; hoje, você tem outra questão. O mesmo vale em relação ao uso de contraceptivos ou à legalização do aborto consentido, ou ainda sobre a separação entre princípios religiosos e conduta científica. Quando se pensa na manutenção da integridade, do devo, posso e quero, a grande questão, junto com essa tríade, é se estamos dirigindo, como critério último, a proteção da morada do humano, da morada coletiva do humano. Afinal de contas, não somos humanos e humanas individualmente, pois só o somos coletivamente. Fala-se muito em vivência, quando referimos à vida humana; no entanto, o mais correto seria sempre dizer convivência, pois ser humano é ser junto. Desse modo, a noção de ethos, a noção de morada do humano, oferece um critério para responder ao posso, devo e quero, que é: protejo eu a morada ou desprotejo? Incluo ou excluo? Vitimo ou cuido?

Em um livro delicioso e de complexa leitura, Ética da Libertação, Enrique Dussel escreve sobre um percurso da história da ética dentro do mundo. Começa exatamente mostrando o lugar que a reflexão ética ocupa na história humana, mas conclui com algo que alguns até achariam curioso, hoje: ele não aceita a noção do termo exclusão, ou falar em excluídos, porque acha que a noção de excluído é muito pequena e insuficiente. Dussel, ao pensar a Ética e os processos sociais, econômicos e culturais, trabalha com a noção de vítimas: as vítimas do sistema, as vítimas da estrutura. Pensa ele que, quando se fala em excluído, dá-se a impressão de que é uma coisa um pouco marginal, lateral, enquanto vitimação é uma idéia mais robusta e incisiva. A principal virtude ética nos nossos tempos, para poder manter a integridade e cuidar da casa, da morada do humano, é a incapacidade de desistir, é evitar o apodrecimento da esperança, é evitar aquilo que padre Antonio Vieira apontou, no começou de um de seus Sermões, da seguinte maneira: “O peixe apodrece pela cabeça”. Já viu um peixe apodrecer? Tal como algumas pessoas, ele apodrece da cabeça para o resto do corpo… Um olhar sobre a ética em ciência e na pesquisa tem uma finalidade: manter a nossa vitalidade, manter a nossa vitalidade ética, mostrar que nós estamos preocupadas e preocupados, que a gente não se conforma com a objetividade tacanha das coisas, que a gente não acha que as coisas são como são e não podem ser de outro modo, que a gente não se rende ao que parece ser imbatível.

Ser humano é ser capaz de dizer não, ser humano é ser capaz de recusar o que parece não ter alternativa, ser humano é ser capaz de afastar o que parece sem saída. Ser humano é ser capaz de dizer não, e só quem é capaz de dizer não pode dizer sim; aí está a nossa liberdade. Tem gente que diz assim: “Ah, a minha liberdade acaba quando começa a do outro”; cuidado, a minha liberdade acaba quando acaba a do outro. Liberdade, como saúde, tem de ser um conceito coletivo, a minha liberdade não acaba quando começa a do outro, a minha liberdade acaba quando acaba a do outro. Se algum humano não for livre, ninguém é livre, se algum homem ou mulher não for livre da falta de trabalho, ninguém é livre; se algum homem ou mulher não for livre da falta de socorro, de saúde, ninguém é livre; se alguma criança não for livre da falta de escola, ninguém é livre; a minha liberdade não acaba quando começa a do outro, minha liberdade acaba quando acaba a do outro. Ser humano é ser junto, e é em relação a isso que vale pensarmos nossa capacidade de dizer não a tudo que vitima e sermos capazes de proteger o que eleva a Vida. O vínculo da Ética com a Produção do Conhecimento está relacionado à capacidade deste de cuidar daquela, isto é, manter a integridade digna da vida coletiva. Ética é a possibilidade de recusar a falência da liberdade, a ética é a nossa capacidade de recusar a idéia de que alguns cabem na nossa casa, outros não cabem; alguns comem, outros não comem; alguns têm graça, outros têm desgraça.

A ética é o exercício do nosso modo de perceber como é que nós existimos coletivamente, e então pensar com seriedade naquilo que François Rabelais vaticinou: “Conheço muitos que não puderam, quando deviam, porque não quiseram, quando podiam”.

2.2 – PERCURSO HISTÓRICO-FILOSÓFICO

Durante a antiguidade a Grécia antiga, onde se originaram as reflexões éticas, acentua o caráter público das questões relativas aos valores. Os gregos entendiam que os juízos sobre o bem, a verdade, a justiça eram ditados pela consciência moral (individual), mas decididos de maneira livre e racional em praça pública, na pólis.

Para os gregos, o mundo ético – dos valores – era o mundo da racionalidade e da liberdade, que se realizam plenamente na pólis, pela pratica política. Consideravam, ainda, que a condição para o pleno exercício da cidadania era que o diálogo fosse travado entre homens livres e iguais. Isso quer dizer que um comportamento só pode ser ético quando livre de qualquer constrangimento, necessidade ou determinação.

Na idade média, os princípios da ética antiga sofrem uma significativa mudança em função do poder exercido pela igreja, as normas de convivência social da Idade Média passam a ser reguladas pelos princípios do cristianismo. As duas virtudes capitais do cristianismo são a e a caridade, que se traduzem em sentimentos e intenções, virtudes internas, de ordem privada dos indivíduos. Desse modo, a dimensão ética já não se manifesta na ação, no comportamento, no agir social, mas nas boas intenções e no desejo de alcançar o bem para atender à vontade divina.

Se antes os valores éticos deveriam nortear as relações humanas em busca do bem comum, na ética cristã a finalidade da prática dos valores é encaminhar as relações dos indivíduos para com Deus, supremo juiz das ações humanas: é Ele que pode observar a consciência e saber as intenções dos homens. Desse modo, o que passa a ser avaliado é a interioridade, a consciência.

Para controlar a interioridade, cria-se a idéia de culpa pessoal. A culpa funcionaria como um juiz particular que sabe quando a fé foi insuficiente, a adesão não-sincera. É esse juiz, implacável na avaliação, que tira a paz dos indivíduos, fazendo com que eles paguem, desde agora, por suas faltas.

Essa mudança de finalidade marca o rompimento do vínculo entre ética e política. E a conduta ética, que era decorrente da vontade, livre e racional (crítica), apresenta-se, agora, como capacidade de obediência à lei divina, à ordem dada, à determinação da autoridade.

Com a vigência desses princípios, desvaloriza-se a autonomia e a deliberação humanas. Dá-se a decadência e a fragilização da responsabilidade pessoal. Isso porque, se acreditamos que tudo já está predeterminado por uma ordem superior, divina, limitamos nossa possibilidade de escolha, de decisão.

A Idade Média se organiza segundo o modelo de produção feudal. Nesse modelo as relações sociais caracterizavam-se por rígida hierarquia entre os senhores – proprietários das terras – e os servos – aqueles que as cultivavam. A esses últimos cabia, em troca do trabalho, apenas a parte da produção necessária à subsistência familiar. Os servos deviam obediência aos senhores, mas, diferente dos escravos, possuíam direito à vida e proteção dos senhores em caso de guerra. À Igreja, detentora do saber, competia a manutenção dos princípios de obediência que regulavam essas relações.

Na passagem da Idade Média para o período correspondente à modernidade ocorreram grandes transformações (a intensificação do comércio, o descobrimento de novas terras, importantes invenções) que introduziram mudanças radicais na ordem econômica e, conseqüentemente, na ordem das idéias e valores da sociedade.

Considera-se o tempo decorrido entre o século XIII e o século XVI como referência para indicar o período de desagregação da antiga ordem feudal.

Com a intensificação do comércio, os servos libertos saem do  campo para os burgos, onde passam a dedicar-se à atividade comercial. No desenvolvimento dessa atividade, eles começam a estabelecer relações mais igualitárias fundadas nos valores do trabalho, da honestidade, da palavra empenhada. Surge então uma nova classe social – a dos burgueses – assim chamados porque viviam nos burgos.

Os burgos, na Idade Média, eram pequenas vilas fundadas à beira das estradas, por servos que escapavam do senhor feudal. Essas vilas tinham sua base econômica no comércio e muitas delas vieram a transformar-se em cidades. A burguesia, classe social nascida a partir daí, com o tempo veio a diversificar-se em alta burguesia – detentora dos meios de produção – e em média e pequena burguesia – designadas, no século XX, como classe média.

Novas relações econômicas e sociais têm origem, favorecendo a passagem da antiga ordem feudal para o capitalismo moderno. Instaura-se uma nova ética.

Capitalismo é o sistema socioeconômico centrado na propriedade privada dos meios de produção, matéria-prima, e instrumentos de trabalho. Nesse sistema, a produção está organizada entre aqueles que detêm o capital e os que, em troca de salário, empregam sua força de trabalho para impulsionar a produção.

Ao surgimento e fortalecimento de uma nova classe social – a burguesia – corresponde o desenvolvimento de uma nova ordem de valores, que passa a nortear as relações entre os homens.

Os interesses dessa nova classe, dependentes do desenvolvimento da produção e da expansão do comércio, exigiam mão-de-obra livre e dedicação ao trabalho capazes de aumentar a produtividade e de contribuir para a prosperidade dos negócios.

A nova classe em ascensão tem como característica as virtudes de laboriosidade, honradez, puritanismo, amor à pátria e à liberdade, em contraposição aos vícios da aristocracia – desprezo ao trabalho, ociosidade, liberdade e libertinagem.

O trabalho, na sociedade moderna, passa a ser reconhecido como fato social determinante da própria humanização do homem (fato que o distingue do animal) e elemento capaz de modificar as condições de existência da própria sociedade.

Antes, o trabalho sempre foi visto de forma negativa. Na sua origem, a palavra trabalho vem do latim tripalium, que significa um instrumento de tortura. Mesmo na Bíblia o trabalho é proposto como castigo pela culpa de Adão e Eva (nos termos bíblicos, o homem é condenado a trabalhar e a ganhar o pão com o suor do seu rosto, ficando a mulher condenada ao trabalho de parto). Na Grécia antiga e na Idade Média, é desvalorizando por estar reservado aos escravos e aos servos.

A sociedade moderna declara o trabalho uma expressão de liberdade, uma vez que, por meio dele (seja pela força física, pela ciência, pelas artes) o homem modifica a natureza, inventa a técnica, cria nova realidade, enfim, altera o curso das coisas, alterando a si próprio e a sociedade onde ele vive.

Identifica-se o trabalho como fator  econômico, salário, poder; recurso humano voltado para a qualificação do trabalhador. Sabe-se que, em uma economia globalizada, com um processo de produção flexível, a qualificação do trabalhador não é garantia de emprego e nem o cria. No entanto, não resta dúvida de que, no atual quadro econômico, os novos empregos passarão a absorver os trabalhadores mais qualificados.

2.2.1 – O conhecimento profundo da natureza humana

Entendemos, aqui, por humanismo a postura filosófica que não quer afirmar ou negar a existência de Deus, na medida em que não precisa dela para fundamentar os valores da vida humana. O humanismo busca no conhecimento profundo da própria natureza humana a fundamentação para as normas éticas e os valores que devem orientar nossa vida individual e coletiva.

De acordo com essa visão, o sistema de valores que adotamos não pode ser definido em função de quaisquer desejos subjetivos ou preferências arbitrárias, porque tanto o indivíduo como os grupos sociais podem estar momentaneamente dominados por desejos irracionais, patológicos e destrutivos. Hitler, por exemplo, queria ser o chefe supremo de uma “raça germânica superior”, que dominaria o mundo inteiro. E levou grande parte da sociedade alemã de sua época a acreditar nos valores nazistas.

Portanto, para a ética humanista objetiva, apenas os valores “objetivamente válidos” devem orientar os desejos humanos. E quais são, de modo geral, esses valores objetivamente válidos?

Sentenças éticas são frases que usam palavras como bom, mau, certo, errado, moral, imoral, etc.

Aqui vão alguns exemplos:

  • “Salomão é uma boa pessoa”
  • “As pessoas não devem roubar”
  • “A honestidade é uma virtude”

Em contraste, uma frase não-ética precisa ser uma sentença que não serve para uma avaliação moral. Alguns exemplos são:

  • “Salomão é uma pessoa alta”
  • “As pessoas se deslocam nas ruas”
  • “João é o chefe”.

 

 

 

 

 

 

3 – OS GRANDES PENSADORES DA ÉTICA NO PASSADO

Vejamos algumas concepções éticas a respeito do bem e do mal através dos tempos:

Confucionismo:

Hedonismo: doutrina pregada desde a Grécia Antiga por filósofos como Górgias, Cálicles e Arístipo. Os hedonistas afirmavam que o bem é tudo aquilo capaz de oferecer prazer imediato. O mal é aquilo que gera sofrimento.

Epicurismo: Doutrina elaborada por Epicuro (342-271 aC), que procurava aperfeiçoar o hedonismo. Defendia que o bem não era qualquer prazer, mas os prazeres devidamente selecionados. Assim, construiu uma espécie de hierarquia dos prazeres. Os epicuristas consideravam superiores, por exemplo, os prazeres naturais em vez dos artificiais, os prazeres calmos em vez dos violentos. O supremo prazer era, entretanto, o prazer intelectual, que se obtinha mediante o domínio das paixões pela razão.

Estoicismo: O filósofo Zenão de Cítium (336-263 aC) é considerado o fundador da escola estóica, que pregava um espírito de total renúncia aos desejos, considerados como a fonte de todo sofrimento humano. O bem consistia na aceitação da ordem universal, que deve ser compreendida pela razão.

Tomismo: O filósofo cristão Santo Tomás de Aquino (1225-1274), afirmava que o bem consiste nas ações capazes de aproximar o homem de Deus. Tomás de Aquino reconhecia que a razão humana tem condições de estabelecer deveres morais, mas procurava harmonizar esses deveres à ordem de Deus, revelada ao homem pela fé cristã.

Formalismo kantiano: O filósofo alemão Immanuel Kant (Final do século XVII), defendia a concepção moral que identificava o bem ao cumprimento puro e simples do dever. A fonte do dever é a razão humana, que elabora normas orientadoras da nossa conduta. Esse filósofo foi o mesmo que se opondo à “moral do coração” de Jean-Jacques Rousseau, volta a afirmar o papel da razão na ética. Não existe bondade natural. Por natureza, diz Kant, somos egoístas, ambiciosos, destrutivos, agressivos, cruéis, ávidos de prazeres que nunca nos saciam e pelos quais matamos, mentimos, roubamos. É justamente por isso que precisamos do dever para nos tornarmos seres morais.

4 – A ÉTICA NAS EMPRESAS

 

O conhecimento é uma condição indispensável ao exercício da liberdade e, portanto, de cidadania. Por isso não podemos desconhecer que a possibilidade de estendê-lo à grande massa de trabalhadores (durante tanto tempo exclidos de seu acesso) cria perspectivas de que venha a resgatar o valor do  trabalho. E isso permite instruir uma nova ética nas empresas e na sociedade como um todo.

É hoje uma tendência cada vez mais constante na organização das fábricas a tomada de consciência sobre a importância de que o trabalho seja estruturado a partir de tarefas globais. Elas seriam executadas por equipes de profissionais suficientemente qualificados para dar conta de um máximo de atividades e para assumir responsabilidade com autonomia e criatividade.

Tal política visa à autodeterminação e o crescimento de todos os envolvidos no processo de trabalho nas organizações. A revalorização e o futuro de uma sociedade não depende exclusivamente de uma política de recurso humano voltada para a qualificação do trabalhador, sabe-se que, uma economia globalizada com um processo de produção flexível, a qualificação do trabalhador não é garantia de emprego e nem o cria. No entanto. Não resta dúvida de que, no atual quadro econômico, os novos empregos passarão a absorver os trabalhadores mais qualificados.

Nestas circunstâncias, a dimensão ética nas empresas deverá passar, necessariamente, pelo resgate da qualificação profissional, mas incluirá outros aspectos organizacionais, fundamentais ao resgate da dimensão pública da ética e, consequentemente, ao resgate da cidadania.

Para pensar a questão ética nas organizações empresariais é necessário, antes de tudo, definir o objetivo desse tipo de organização. Uma organização empresarial, utilizando determinada tecnologia em função do atendimento à demandas da sociedade.

Cabe à empresa desempenhar com qualidade sua missão específica. Assim, por exemplo, espera-se de uma universidade que ela prepare o profissional do futuro, por outro lado, esse desempenho não pode estar dissociado do seu objetivo principal, que é a obtenção de lucro.

Mas não se pode perder de vista que uma organização empresarial está localizada numa comunidade. Ela oferece emprego aos moradores, paga impostos e, a tecnologia que utiliza causa algum impacto sobre esta comunidade.

Para compreender a dimensão ética nma empresa, precisamos saber que além dos compromissos relativos ao funcionamento interno, a organização empressarial possui compromissos externos, de ordem social.

A primeira responsabilidade de uma esmpresa é apresentar um bom desempenho econômico, de forma a cobrir custos e acumular capital. A consequência do s eu sucesso econômico tende a ser desdobrado socialmente em empregos, melhores salários e arrecadação de impostos, preços mais adequados ao consumidor, e qualidade dos serviços – fatores relacionados à justiça social.

Na medida em que no mundo contemporâneo a economia está predominantemente organizada com base na iniciativa privada, torna-se indispensável o comprometimento amplo das organizações com as questões sociais. Hoje, política social e ambiental escapam do meio ambiente, enfim, os problemas mais gerais que afligem a sociedade.

A ética da dignidade da pessoa humana impedirá a empresa de fazer qualquer tipo de discriminação por uma visão preconceituosa de raça ou de sexo. Atuando com base no valor da dignidade da pessoa, a empresa não definirá, por exemplo, uma política salarial fundamentada nessas diferenças. A questão do assédio sexual e assédio moral, será também uma preocupação de sua alçada.

Hoje, o que se põe em questão é o desenvolvimento de uma prática coerente com uma ética pública, em que fiquem preservados os interesses da orgnização, sem compromentimento das ações que contribuam para o bem-estar e o desenvolvimento da sociedade como um todo.

Para abordar os demais compromissos que uma organização precissa assumir de modo a ser conceituada como ética é necessário pensarmos nos atores ou agente do processo organizacional, aqueles que fazem a empresa, que são responsáveis pelo desenvolvimento de sua política e das atividades necessárias ao alcance de seus objetivos. Nesse caso, estamos falando de empregadores (administrador) e empregados.

As responsabilidades da empresa passam pelo sujeito humano que responde pela organizaçao: o administrador. É nessa função que estão concentrados os compromissos éticos, e é sobre esse indivíduo (ou grupo de indivíduos) que se tem expectativas éticas.

A primeira função, atribuição da administração de uma empresa é a elaboração de um bom planejamento. O planejamento é um instrumento de trabalho fundamental. Portanto, sua elaboração deve ser precedida de um estudo minucioso do momento econômico e social, para que a empresa possa construir um cenário da realidade onde atua e, assim, definir prioridades de investimentos, execução e distribuição das tarefas, de modo a tornar o trabalho mais produtivo e o trabalhador mais realizado e empreendedor.

Um aspecto fundamental da administração é a concepção de trabalho proposta pela empresa. O trabalho pode ser visto como lugar de auto-realização do homem, extensão de sua personalidade, espaço de criatividade, onde ele fala de si, mostra-se diante do seu grupo social, expressa sua identidade, presta um serviço social e contribui para o bem comum.

A cultura que valoriza o trabalho e o trabalhador cria no sujeito uma dimensão social da atividade produtiva, inferior apenas à da família. Nelas são criadas vínculos sociais e comunitários, relações interpessoais e afetivas fundamentais à vida das pessoas.

Quanto a questão salarial deve receber especial atenção, pois uma postura ética nas empresas com relação à questão salarial é, sem dúvida, a implantação de um plano de cargos e salários. A adoção desse intrumento propicia uma decisão mais justa sobre um assunto sensível à totalidade dos que estão envolvidos com os trabalhos da empresa. Por meio de um plano criteriosamente elaborado, os trabalhadores são justamente recompensados com promoções sistemáticas. Isso contribui para a melhoria do desempenho e consequentemente, para a maior produtividade da organização.

Um outro tipo de motivação consiste na oferta dos chamados “salários indiretos”, subsidio das cotas de pagamento de planos de saúde, auxílio alimentação, bolsas de estudos são apenas alguns exemplos.

A exigência de maior responsabilidade e comprometimento do trabalhador no controle dos produtos, na verificação da qualidade e na introdução de aperfeiçoamentos e correções no processo de produção proporcionam uma nova dimensão ao treinamento nas empresas. A política de recursos humanos nas empresas, habitualmente desenvolvidas com vistas à formação para o desenvolvimento das habilidades específicas de uma ocupação, hoje se mostra preocupada em oferecer educação geral e mais abrangente aos trabalhadores.

A mudança de direcionamento da formação do trabalhador, seja no interior das empresas, seja nas entidades de formação profissional, aponta para a perspectiva de que o trabalho, no atual contexto empresarial, possa ser retomado como local privilegiado ao desenvolvimento da subjetividade do trabalhador, como local de desenvolvimento de sua identidade e realização pessoal.

A construção de uma cultura, de crenças e valores propicia à consolidação da dimensão ética na empresa e na sociedade como um todo, passa pela reflexão sobre o papel do próprio trabalhador. Se a própria dinâmica do capitalismo cria espaço de maior participação do trabalhador, cabe a este levar às últimas consequências tal tendencia, buscando uma participação crescente nas decisões, nos processos de negociação, de modo a viabilizar salários mais dignos, a qualificação para todos e, enfim, a humanização do mundo do trabalho.

Com isso, pode-se dizer que a cultura ética das organizações passa por uma certa compreensão do trabalho, pela compeensão de que este é um modo de o homem em viver em sociedade, de exercer sua cidadania, sua humanidade. E a condição para a construção de relações baseadas nessa compeensão é apenas a da integridade, tanto da administração empresarial como do trabalhador.

A preocupação com a questão ética vem se tornando, cada vez mais, uma preocupação do meio empresarial. Estudos realizados a respeito dão conta de que uma conduta ética é, atualmente, do interesse de toda empresa que pretenda alcançar o objetivo de aumentar sua participação no mercado e seu patrimônio. Tal interesse surge da consatação de que os melhores funcionários e fornecedores, as melhores fontes de financiamento tendem a preferir aqueles que levam em conta os direitos humanos mínimos instituídos. Também os clientes que têm critérios e que sabem escolher, dificilmente serão leais a um produto de menor qualidade ou a um serviço pouco eficiente.

Como em qualquer questão ética, não existe uma fórmula, regra ou modelo a ser adotado nas organizações empresariais. Mas a ética nas organizações, embora dependa do comportamento do trabalhador, é fundamentalmente de responsabilidade dos dirigentes, a quem cabe a proposição e a manutenção de um código de valores que precisa ser do conhecimento de todos.

A ética empresarial não deve diferir dos princípios que orientam a dimensão pública da ética: não roubar, não trapacear, não receber nem propor suborno são dimensões da ética em geral e, antes de tudo, dimensões do indivíduo e do cidadão, empregados e empregadores. São estes princípio válidos, na empresa e fora dela. A estrutura ética de uma empresa não deve ser confundida com uma listagem de conceitos emoldurados na parede dos dirigentes.

A estrutura ética é, antes de tudo, fruto da convicção coletiva, isto é, das diretrizes resultantes da ampla discussão entre as lideranças, e consolidadas junto a todos os que dela fazem parte, para que se tornem fontes de todas as políticas organizacionais.

“Hoje talvez o último desafio possa ser resumido numa única questão: nós os                                                   humanos temos desenvolvido uma capacidade tecnológica acurada de fazer                                                      quase qualquer coisa que possamos imaginar querer fazer; será que somos                                                       capazes de desenvolver agora uma habilidade de escolher sabiamente quais                                                               as coisas que devem ser realizada?” (HARMAN, Willis e HORMANN, John)

A ética empresarial pode ser entendida como um valor da organização que assegura sua sobrevivência, sua reputação e, conseqüentemente, seus bons resultados. Para Moreira (1999), a ética empresarial é “o comportamento da empresa – entidade lucrativa – quando ela age de conformidade com os princípios morais e as regras do bem proceder aceitas pela coletividade (regras éticas).”

Um profissional deve saber diferenciar a Ética da moral e do direito. A moral estabelece regras para garantir a ordem  independente de fronteiras geográficas. O direito estabelece as regras de uma sociedade delimitada pelas fronteiras do Estado. As leis têm uma base territorial, valendo apenas para aquele lugar. Pessoas afirmam que em alguns pontos elas podem gerar conflitos. O desacato civil ocorre quando argumentos morais impedem que uma pessoa acate certas leis. Às vezes as propostas da  ética  podem parecer justas ou injustas. Ética é diferente da moral e do direito porque não estabelece regras concretas.
A Ética profissional se inicia com a reflexão. Quando se escolhe uma  profissão, passa-se a ter deveres profissionais obrigatórios. Os jovens quando escolhem sua carreira, escolhem pelo dinheiro e não pelos deveres e valores. Ao completar a formação em nível superior, a pessoa faz  um juramento, que significa seu comprometimento profissional. Isso caracteriza o aspecto moral da ética profissional. Mesmo quando se exerce uma carreira remunerada, não se está isento das obrigações daquela carreira.

Nota-se que os jovens têm várias dúvidas sobre o futuro profissional. Quando se tem uma carreira a seguir deve-se colaborar mesmo com o que não é proposto, pois muitas propostas podem surgir e a pessoa deve estar receptiva (preparada). Espera-se que esta disciplina possa esclarecer se não a carreira a seguir, pelo menos a maneira de se portar na vida e no ambiente empresarial.

A Ética é uma só, mas se aplica na família, na sociedade, no trabalho, na profissão. A Ética profissional é um refletir sobre as ações realizadas no exercício de uma profissão e foi iniciada antes mesmo da prática profissional. Se a pessoa já iniciou a sua atividade profissional fora da área que gosta, não quer dizer que não tenha deveres e obrigações a cumprir como profissional.

Ser um profissional ético nada mais é do que ser profissional mesmo nos momentos mais inoportunos. Para ser uma pessoa ética, deve-se seguir um conjunto de valores.
Ser ético é proceder sem prejudicar  os outros. Algumas das características básicas de como ser um profissional ético é ser bom, correto, justo e adequado. Além de ser individual, qualquer decisão ética tem por trás valores fundamentais. Eis algumas das principais:

1.  Ser honesto em qualquer situação – é a virtude dos negócios.

2.  Ter coragem para assumir as decisões – mesmo que seja contra a opinião alheia.

3.  Ser tolerante e flexível – deve-se conhecer para depois julgar as pessoas.

4.  Ser íntegro – agir de acordo com seus princípios

5.  Ser humilde – só assim conseguimos reconhecer o sucesso individual.

A ética profissional e conseqüentemente das organizações é considerada um fator importantíssimo para a sobrevivência delas, tanto das pequenas quanto das grandes empresas.

As organizações estão percebendo a necessidade de utilizar a ética, para que a sua clientela externa tenha conhecimento de sua imagem, o que definirá seu sucesso, permindo seu crescimento, através da confiança e da boa relação entre funcionários e clientes.

Desse modo, é relevante ter consciência de que toda a sociedade vai se beneficiar através de um programa de ética aplicada dentro da empresa; os clientes, os fornecedores, os sócios, os funcionários, o governo e o meio ambiente. Porém a maior beneficiada será a própria empresa, pois dessa maneira ela infunde confiança tanto na clientela externa como na clientela interna e no própio meio em que ela está inserida, crescendo e fazendo crescer de maneira sustentável.

Quando a empresa tira vantagem de clientes, abusando dos preços e/ou do uso de publicidade enganosa, ela pode até enganar alguns por algum tempo, mas não conseguirá enganar todos o tempo todo e, por isso pode ter lucro durante algum tempo mas estará fadada à falência. A imagem (nome da empresa) é algo que se leva muito tempo para construir e, se não for bem cuidado, pode ser perdido em segundos.

Quando o funcionário de uma empresa atende mal a um cliente, não é o nome do funcionário que vai ficar maculado, pois o cliente normalmente generaliza: “fui desacatado e mal atendido pela empresa X”. A ética na empresa vem para garantir que os funcionários saibam lidar com determinadas situações e que a convivência com o cliente e com os colegas de trabalho, seja o mais prazeiroso e agradável possível.

5.1 – VALORES A SEREM CULTIVADOS PELA PESSOA NA EMPRESA

Estes são os dez valores que, no seu conjunto, consideramos imprescindíveis para que a consciência crítica construa o ser social da empresa de uma forma ética: a justiça, a honestidade, a liberdade, a responsabilidade, o respeito, a veracidade, a confiança, a disciplina, a solidariedade, a espiritualidade.

Com isto, acreditamos que a ética se constrói a partir de dentro de cada pessoa na medida em que ela cultiva valores ou princípios. Não é a empresa que faz a pessoa ética, mas é esta que, possuindo energias éticas internamente, cristaliza-as em comportamentos favorecendo a criação de uma ambiente ético. Assim todos os esses valores não se impõem por leis ou códigos, mas podem e até devem ser estimulados com reflexões constantes na empresa, especialmente a partir de situações conflitantes.

5.1.1 – Justiça

A justiça, no seu conceito mais claro e profundo, é formulada por Aristóteles como “o hábito segundo o qual, com constante e perfeita vontade, se dá a cada qual o seu direito ou o que lhe pertence”. Sendo um hábito ela é adquirida pela pessoa com exercícios e práticas na vida em geral, e no caso que estamos estudando na empresa em particular.

Desta conceituação surgem perguntas básicas para a concretização da justiça: o que é do outro ou o que lhe pertence? Qual a medida ou o critério para dar ao outro algo? Como estabelecer a igualdade para satisfazer as exigências deste “dar”?

A forma mais rudimentar, imediata e visível é cumprir as convenções legais da sociedade, como jornada de trabalho, contratos salariais, férias, descanso, obrigações assumidas, devere e direitos dos regulamentos internos. Para isto, seria necessário que a todos fosse facilitado o conhecimento destas normas e exigências, e, de vez em quando fossem discutidas.

A forma mais profunda encontra-se na delicadeza da consciência em promover os direitos fundamentais do ser humano à vida, à liberdade, à segurança, à verdade, à felicidade, à honra, à dignidade, etc., ultrapassando mesmo as medidas estabelecidasw pela sociedade; por isso que ela é considerada a mãe de todas as virtudes.

Concretamente numa empresa o homem jsto se preocupa não só com seu bem-estar, mas tambem com o dos outros, por exemplo, na segurança do trabalho, na preocupação em evitar poluição, na comunicação de possíveis erros em algumas atividades, em cortar boatos prejudiciais à fama e ao bom nome de alguém, em promover a concórdia entre pessoas.

Enfim, a justiça é a riqueza ou o tesouro mais nobre da pessoa. Acarretando sua quebra acontece uma desgraça, como asseverava Platão: “quem comete uma injustiça é sempre mais infeliz que o injustiçado”, ou Demócrito: “se sofreu uma injustiça console-se; a verdadeira infelicidade é cometê-la”.

2.1.2 – Honestidade

 

A honestidade é o corolário mais imediato da justiça; é a qualidade ou o atributo ligado à probidade, à honradez, à pureza e à decência; portanto é um apreço, consideração ou estima pelas ações boas; é um sentimento da própria dignidade com o brio e a coragem dos deveres cumpridos alimentados por um ideal moral. Ela pressupõe uma firmeza de propósitos pela qual a pessoa assume a si mesmo, delibera e decide seus atos, sendo um meio-termo entre o medo e a temeridade.

Numa empresa, a pessoa se manifesta honesta quando age não porque “todo mundo faz assim”, sendo uma “Maria vai com as outras”; concretamente ele observa o horário, mesmo que muitos não o façam, porque tem consciência da importância de tal comportamento; ele não se deixa corromper por propinas, ainda que outros profissionais de sua classe assim ajam, porque cultiva o respeito aos bens alheios, sejam públicos ou privados; ela não invade a privacidade da vida de outrem, por exemplo, através de escutas, mesmo que saiba que haja alguém que assim se comporta, porque considera sagrado tudo o que pertence ao outro.

A honestidade é antes de tudo uma questão de “ser ou não ser” pessoa humana com dignidade tanto para si como para os outros. É daí que brotam decisões na vida de quem trabalha em indústrias, comércios ou servícos, com relação a preços, qualidade, embalagem, pesos, ingredientes e vendas de produtos.

 

A honestidade exige uma constante luta em prol de valores nobres e elevados; com isto a pessoa pode perder ocasiões de enriquecimento fácil, mas ilícito; ela exige sacrifícios e até perdas de chances, que são aprovitadas por outros; mas o honesto tem a maior riqueza que é a paz de consciência. Ela é o melhor legado que se pode deixar, como afirma Enéas (na Eneida de Virgilio), exortando seu filho: “aprende comigo a virtude e o trabalho honesto”.

2.1.3 – Liberdade

A liberdade pode ser entendida num sentido físico, como poder de fazer ou deixar de fazer alguma coisa, por exemplo: trabalhar durante o expediente ou não trabalhar; ou num sentido psíquico, como o poder da vontade de determinar-se a si mesma e por si mesma, por exemplo: eu decido trabalhar após o horário para completar uma tarefa; ou num sentido moral como capacidade de escolher os melhores meios para própria realização como pessoa, por exemplo: opto para ser funcionário numa escola porque isto me faz crescer como ser humano nas várias dimensões: material, espiritual, social, etc.

Assim, quem está numa empresa é livre porque isto faz parte de objetivos, ideais ou metas que alimentam outras escolhas no mesmo ambiente; a pessoa tem consciência que liberdade não é eximir-se de obrigações (como horário, esforço, relacionamentos, etc.), mas caminhar para obrigações (como horário, esforço, relacionamentos, etc.).

Isto implica que liberdade não é fazer o que quer, mas o que deve em função de realizar-se como ser humano, como testemunha a famosa frase de Sartre: “somos condenados a sermos livres”.

A liberdade concebida desta maneira supera o falso axioma do liberalismo individualista “a minha liberdade termina onde começa a do outro”. Os seres humanos não são como carteiras de uma sala de aula que estão meramente justapostas umas às outras, mas pela nossa intersubjetividade nos invadimos mutuamente: eu só sou livre se o outro também o form junto comigo e vice-versa. A liberdade é uma construção coletiva; deve existir numa rede de relações de engendramento em que um se preocupa com a realização do outro como ser humano; numa espresa ninguém deve ser visto como obstáculo ao outro, senão se criam fechamentos, mesquinharias, e, consequentemente, uma escravização.

É neste sentido que podemos aplicar o pensamento de Rousseau: “a liberdade consiste na obediência à lei autoprescrita”. O ser humano individual ou coletivo (como uma empresa) deve fazer suas normas para que conscientemente todos cresçam em dignidade, em felicidade.

5.1.4 – Responsabilidade

Liberdade significa responsabilidade; é por isso que tanta gente tem medo dela”. (Bernard Shaw). Ser responsável é responder concretamente pelos seus atos assumindo as conseqüências de suas escolhas, mesmo com dificuldades e sacrifícios; o responsável cumpre suas obrigações não porque o chefe está vigiando ou pode ser punido, mas porque descobriu um valor naquilo que está fazendo tanto para si comp para os outros.

A responsabilidade faz a pessoa perceber que, uma vez que ela escolheu algo, ela se limitou, masé nesta limitação que está sua realização; por exemplo: o desempregado que finalmente achou um serviço de costureiro e o assumiu será responsável se procurar desempenhá-lo bem, mesmo que perceba que isto o impede de ser pedreiro, motorista, cobrador, etc.

Ela exige que a pessoa repita todos os dias aquele sim que deu no momento da opção com outros sins diários através da execução de tarefas concernentes; a responsabilidade é a construção da liberdade, ela tem como base a coragem, a lealdade, a transparência.

Na sua dinâmica, a responsabilidade impõe cuidados e vigilância; em primeiro lugar, contra a ignorância; daí, por exemplo, a necessidade de, numa empresa, as pessoas saberem de tudo o que lhes diz respeito para o bom desempenho de suas funções; em seguida, contra os impulsos que podem desviar a pessoa da retidão de seus compromissos, como inveja, raiva, ira; e também dos interesses dominantes de grupos que podem afastar a pessoa da nobreza de seus objetivos.

O responsável não somente cumpre ordens como um autômato, mas procura saber o que faz, por que faz e como faz; assim, numa empresa, não exitem aqueles que sensam e aqueles que executam, mas todos são seres pensantes e executores; nesta mesma linha a pessoa deixa de ser um mero tarefeiro de atividades burocráticas, mas percebe nas mesmas valores humanos que devem ser atingidos.

Sem dúvida, também na empresa, deve verificar-se a famosa afirmação de Winston Churchill: “a responsabilidade é a ferramenta necessária para atingir a grandeza humana”.

5.1.5 – Respeito

O respeito entende-se como o empenho em reconhecer em si mesmo e nos outros uma dignidade á qual se refere um dever de salvaguardar.

A primeira exigência que o respeito impõe é a de prestar atenção ao outro como ser humano com suas demandas e características próprias, percebendo as riquezas e os valores de cada um; deve-se partir da realidade de como o outro é para se entabular um relacionamento e uma convivência digna; é saber admirar o que é diferente na diversidade das pessoas para atingir a igualdade fundamental, o respeito impõe a aceitação de cada idiossincrasia (temperamento peculiar) pessoal evitando a massificaçáo e a coisificação.

Isto numa empresa leva à aceitação das pessoas, seja branco, negro, homem, mulher, católico ou protestante, etc.; pois no fundo da essência está o antropos, o ser humano que é o mais importante. Deve-se assim ultrapassar rótulos, como gerente, gestor, almoxarife, zelador, secretário, etc., para perceber aí alguém que tem tanto valor quanto qualquer outro.

Com esta visão, as diferenças tornam-se riquezas, as divergências no seu entrechoque procurarão uma convergência, os antagonismos poderão se superados em nome de algo mais sublime e significativo, os preconceitos serão percebidos como idiotices; enfim, as pessoas sentirão que na vida e, no caso particular, na empresa, existem tantas coisas mais importantes que merecem a preocupação da gente do que fofocas, boatos, desprezos, indiferenças, discussões bobas, etc.

Com estes pressupostos entendem-se facilmente certas afirmações como a de Rousseau: “o primeiro passo para o bem é não fazer o mal”, ou de Ortega e Gasset: “desconfio do respeito de um homem com seu amigo ou bandeira quando não o vejo respeitar o inimigo ou a bandeira deste”, ou de John Gardner: “se respeitar as pessoas como elas são é bom, você pode ser mais eficaz ajudando-as a se aperfeiçoarem”.

5.1.6 – Veracidade

A veracidade é a expressão da verdade conforme o conhecimento da pessoa; esta possui a convicção de efetivar uma comunicação da realidade; brota da sinceridade interior da pessoa; não se refere somente à palavra escrita ou falada, mas também nos gestos, símbolos e comportamentos que impliquem comunicação.

Com isto, a pessoa mantém o respeito que se deve ao outro, não perturba a ordem social, favorecendo a concórdia mútua ente os seres humanos, e preserva o valor dos sinais de comunicação.

Como é importante numa empresa o cultivo à veracidade; ela evita várias atitudes negativas no relacionamento, como o falso testemunho e o perjúrio que contribuem ou para condenar um inocente ou inocentar um culpado, comprometendo gravemente o exercício da justiça. Como é triste este comportamento entre colegas de trabalho quando a inveja ou a concorrência desleal por cargos pisam na verdade.

No mesmo patamar está a exigência do respeito à reputação do próximo que faz evitar o juízo temerário, que admite como verdadeiro sem fundamento suficiente um defeito moral do próximo; faz evitar também a maledicência que sem razão objetivamente válida revela a pessoas que não sabem os defeitos e falhas dos outros; e enfim faz evitar a calúnia que prejudica o bm nome dos outros e dá ocasião a falsos juízos a respeito deles.

Ainda a veracidade exclui a bajulação, a adulação ou complacência, enquanto encorajam e confirmam o outro nos seus erros e males para obter vantagens dos mesmos; como é triste o “puxa-saquismo” numa empresa! O mesmo se diga da jactância ou fanfarronice em que a pessoa se vangloria, querendo aparecer mais do que é, ou da ironia e sarcasmo que deprecia alguém caricaturando-o de modo malévolo.

5.1.7 – Confiança

A confiança é a adesão às manifestações do outro, por palavras ou gestos, como resultado da aceitação do outro, entrando em comunhão recíproca com o mesmo; ela é um ato da inteligência a mando da vontade; o conteúdo da mensagem torna-se verdadeiro, mesmo que nem sempre compreensível ou explicável, porque a pessoa do outro merece apreço, valor e dignidade.

A confiança é a base do relacionamento humano, a partir do casamento e da família, estendendo-se para toda a sociedade. Ora, numa empresa também a confiança tem que estar presente, especialmente hoje em dia com a multiplicidade de informações e a fragmentação das especializações Cada um é uma fonte de conhecimento, que deve ser respeitado pelos demais a fim de que ocorra a harmonia da convivência com o consequente êxito das atividades.

É certo, todavia, que a confiança é um salto no escuro, sem uma garantia absoluta do que pode acontecer, mas aí de um lado reside sua beleza e grandeza, pois ela implica a saída de um ser humano para a invasão de outro ser humano, formando uma espécie de outro ser em que ocorre uma partilha de descobertas; de outro lado, mesmo com riscos, ela mostra que o ser humano não pode viver exclusivamente de dados inquestionáveis; assim, mesmo com possíveis decepções para o próprio progresso humano é melhor confiar do que não confiar; quem confia pode errar, quem não confia já errou.

Também a confiança espelha humildade em que cada um reconhece os próprios limites que são ultrapassados pelas potencializações do outro; revela o indivíduo que, em vez de construir muros, constrói pontes com os outros à custa de gastar tempo, ouvir, tolerar, ajudar e ser ajudado. Isto é importante na relação entre colegas, entre chefes e subalternos, entre fornecedores e clientes, etc.

Enfim, a confiança é uma atitude que aceita a lealdade, a sinceridade, a fraqueza, a integridade, a bondade, a plureza, o altruísmo, a magnanimidade e a benevolência como valores existentes no ser humano, inclusive durante uma atividade profissional. Vale a pena refletir no que escreve Frölich: “a confiança constitui um componente importantíssimo na interação social dos seres humanos no seu dia-a-dia. Pensadores, investigadores e cientistas sociais teorizam, analisam e discutem as implicações de confiança em dimensões aconômicas, sociológicas, psicológicos, culturais, mostrando sua inter-relação profunda nas atividades sociais”.

5.1.8 – Disciplina

A disciplina é a maneira pela qual os membros de um grupo se conformam de acordo com as normas preestabelecidas; ela tem uma dupla dimensão: de um lado é social porque tem ressonâncias no conjunto humano que constitui uma empresa; de outor lado, é individual porque interessa a cada pessoa como parte de um todo.

Na relação entre autoridade e súditos ela fomenta o respeito mútuo entre ambos, objetivando manter a todos satisfeitos enquanto ensina e orienta a cada um no desempenho eficiente de suas tarefas. Desta forma, ela faz parte das regras do jogo de uma convivência humana, encaixando-se nas exigências da justiça para se conseguir o objetivo comum na empresa.

Ela é um processo dinâmico, que é alimentado por duas fontes. De um lado, a fonte externa, que provém da própia organização enquanto estabelece normas claras, fornece instruções a respeito das mesmas, estabelece procedimentos de verificação do comportamento e de medidas a serem tomadas; o ideal seria que tudo isto fosse, na medida do possível, discutido periodicamente entre todos aueles que fazem parte da empresa.

De outro lado, a fonte mais forte é a autodisciplina pela qual a própria pessoa se impõe formas de agir a fim de adequar-se conscientemente aos padrões da empresa. Isto, como aliás em qualquer outra situação da vida,como esporte, faília, religião, só se adquire quando se tem visão claro do que se pretende com treino, exercício, repetição de ações, mas sempre com atenção e relexão no que se está fazendo.

Portanto, a disciplina não deve ser aceita por si mesma, mas como um meio para que sejam alcançados valores maiores, que no caso da empresa seriam a eficiência no trabalho, a satisfação em rendez e produzir, a harmonia de vida entre seres humanos.

5.1.9 – Solidariedade

Solidariedade etimologicamente significa “ajudar a quem está só”; portanto ela implica uma inter-relação ou uma interdependência; qualquer pessoa pode encontrar-se numa situação material, moral, espiritual, afetiva, da qual não pode sair sozinha; quando alguém lhe estende a mão, dá um conselho, mostra um caminho, favorece-lhe algum bem de forma desinteressada e gratuita, manifesta-se ali a solidariedade.

A solidariedade é, então, uma assistência recíproca entre os membros de um mesmo grupo, que pode ser toda a humanidade, um continente, um país, uma religião, uma família ou uma empresa. Ela brota da percepção de que o mal do outro que está só não pertence só a ele, mas à coletividade, e esta deve combatê-lo; é uma alteridade (capacidade de sentir o outro) que supera o egoismo.

Inclusive, ela mosta que, enquanto o outro está mal, eu também estou; não é só um fato individual, mas com repercussões sociais, assim enquanto houver um analfabeto, eu também devo me sentir diminuído nos meus conhecimentos e devo lutar para ajudá-lo a sair de sua situação; enquanto houver um faminto, eu também em certo sentido devo perceber que não basta eu me alimentar; enquano houver algume sem teto, devo sentir-me preocupado em minha moradia.

A solidariedade emergencialmente se manifesta em dar alimentos, em socorrer vítimas de acidentes, como catástrofes da natureza ou do próprio homem; mas sua concretização mais séria deveria estar em ajudar a pessoa a resolver por si mesma seus problemas; assim ela sentir-se-ia mais gente, com mais dignidade e poderia participar mais da própria sociedade ajudando outros também a se desenvolverem; isto numa empresa é plenamente viável quando há o interesse pelo outro como verdadeiro ser humano.

5.1.10 – Espiritualidade

A espititualidade é a crença de que a vida humana não se explica, e, por conseguinte, não se encerra somente nas realidades materiais; ela se mostra pelo desejo que o homem tem de sempre se transcender, de viver mais, de querer mais, de atingir o absoluto; a pessoa vive à procura de explicações além da tradição, da filosofia, da ciência sobre questões básicas como: o que é a vida? O que é o amor? Vale apena viver valores éticos? O que ocorre após a morte? Existem seres imateriais ou um ser supremo?

Há milênios, estas perguntas foram feitas e muitas respostas foram dadas e muitas outras ainda serão dadas. Mesmo quem não aceita nenhuma resposta já dada, continua no fundo do seu ser à procura de uma luz. Então, a espiritualidade pelo menos exige que a pessoa reflita sobre algo a mais além do dia-a-dia, do trabalho, do acumular bens, do relacionamento interpessoal, da vida familiar. Existe um infinito dentro de cada um que quer faze-se ouvir, que quer dialogar, que quer ajudar a pessoa a encontrar-se melhor consigo mesma.

A palavra espiritualidade normalmente sugere religião; ora, esta é uma forma de responder aos apelos que vêm de dentro da pessoa, mas nenhuma religião por si satisfaz plenamente o ser humano se ela for vista como algo que vem de fora com imposições; assim, as religiões são meios para que a pessoa se encontre melhor com Deus, consigo mesma, com os outros, com o mundo.

À primeira vista pode parecer que isto não tem nada a ver com economia ou empresa; mas tem sim! O ser humano enquanto trabalha não só não deixa de ser espiritual, mas esta mesma espiritualidade será uma motivação forte para viver seus valores, bem como a ausência desta espiritualidade poderá enfraquecê-lo.

Enfim, a espiritualidade nos faz perceber que cada um deve sair de seu pequenino mundo individual, abrir-se para a família, para seus amigos, para seus colegas, para os necessitados, para a natureza, para o uiverso, enfim; pois esta vida terrena passa e o que fica é o que foi cultivado de bom no interio a caminho do absoluto. Assim, a pessoa terá até mais forças para ultrapassar incompeensões, pois está bem com o que lhe é mais importante; o mistério de seu interior.

5.1.11 – Conclusão

Após a análise destes valores constatamos que eles não surgem de repente nas pessoas quando começam a trabalhar numa empresa; eles já são trazidos pelos indivíduos como resultado de sua história de formação familiar, religiosa e social; deste modo, a empresa torna-se a desembocadura de convicções e formas de agir da grande sociedade.

No entanto, é importante que haja momentos de debates e de diálogos sobre estes valores no ambiente de trabalho; isto não é perda de tempo, mas é exatamente para se aproveitar melhor o tempo e evitar comportamentos inadequados.

5.2 – A ÉTICA DO LUCRO

O lucro é a parte sensível de uma organização, por isso exige cuidado no momento do planejamento para sua obtenção. Isto significa que ser antiético, enganando seus clientes, não é uma boa conduta para a empresa que almeja se desenvolver e crescer perante à concorrência.

Assim, pode-se deduzir que a obtenção do lucro é um dos fatores advindos as satisfação dos clientes, pois é objetivo do negócio, que a empresa desenvolve para cumprir suas metas, tendo como retorno o resultado dos serviços prestados.

5.3 – VALORES ÉTICOS

São um conjunto de ações éticas que auxiliam gerentes e funcionários a tomar decisões de acordo com os princípios da organização. Quando bem implementado, os valores éticos tendem a especificar a maneira como a empresa administrará os negócios e consolidar relações com fornecedores, clientes e outras pessoas envolvidas.

5.3.1 -

5.4 – CÓDIGO DE ÉTICA

É um instrumento criado para orientar o desempenho de empresas em suas ações e na interação com seu diversificado público. Para a concretização deste relacionamento, é necessário que a empresa desenvolva o conteúdo do seu código de ética com clareza e objetividade, facilitando a compreensão dos seus funcionários.

Se cada empresa elaborasse seu próprio código, especificando sua estrutura organizacional, a atuação dos seus profissionais e colaboradores poderia orientar-se através do mesmo. O sucesso da empresa depende das pessoas que a compõe, pois são elas que transformam os objetivos, metas, projetos e até mesmo a ética em realidade. Por isso é importante o comprometimento do indivíduo com o código de ética.

MOREIRA, Joaquim Magalhães. A ética empresarial no Brasil. São Paulo: Pioneira, 1999. p. 28.

MATOS, Francisco Gomes. Ética empresarial e responsabilidade social. Disponível em: http://www.ceris.org.br/rse/eticaempr.asp Acesso em: 22 out 2005.

OUVIRES, Orlando. Ética Empresarial. Disponível em: http://www.unimep.br/fd/ppgd/cadernosdedireitov11/14_Artigo.html Acesso em: 22 out 2005.

ÉTICA: identifique e articule valores claros. Disponível em: http://www.ethos.org.br/DesktopDefault.aspx?TabID=3643&Alias=ethos&Lang=pt-BR Acesso em: 10 nov 2005.

[5]MONTANI, Silvana. Ética Empresarial, um código de sobrevivência. Disponível em: http://www.itcon.com.br/noticia3.html Acesso em: 10 nov 2005.

[6]Código de ética Petrobras. Disponível em: http://www2.petrobras.com.br/portal/frame.asp?pagina=/Petrobras/portugues/visao/vis_codigos_index.htm Acesso em: 10 nov 2005

[7]ABRASEL. Disponível em: http://www.interlins.com.br/abrasel-am/codigo.htm Acesso em: 12 nov 2005

[8]CASSI. Disponível em: http://www.cassi.com.br/a_empresa/codigo_de_etica.asp Acesso em: 12 nov 2005

[9] Código de Ética da Caixa: http://www.caixa.gov.br/acaixa/codigo_etica.asp

Obtido em “http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%89tica_empresarial

Categoria: Ética

5.5 – CONSCIÊNCIA MORAL E LIBERDADE

Consciência é a característica que melhor distingue o homem dos outros animais. Ela permite o desenvolvimento do saber e de toda essa racionalidade que se empenha em distinguir o verdadeiro do falso.

Mas, além dessa consciência lógica, o ser humano possui também uma consciência moral, isto é, a faculdade de observar a própria conduta e formular juízos sobre os atos passados, presentes e as intenções futuras.

Assim, depois de julgar, o homem tem condições de escolher dentre as circunstâncias possíveis, seu próprio caminho na vida. A essa possibilidade que o homem tem de escolher seu caminho e construir sua história dá-se o nome de liberdade.

 

A liberdade e a consciência moral estão intimamente relacionadas, porque só tem sentido julgar moralmente a ação de uma pessoa se essa ação foi praticada em liberdade. Quando não se tem escolha (liberdade), quando se é coagido a praticar uma ação, é impossível decidir entre o bem e o mal (consciência moral). A decisão, neste caso, é imposta pelas forças coativas.

Por outro lado, quando estamos livres para escolher entre esta ou aquela ação, tornamo-nos responsáveis pelo que praticamos. É essa responsabilidade que pode ser julgada pela consciência moral do próprio indivíduo ou do grupo social.

Essa ligação entre liberdade, responsabilidade e moralidade foi identificada e estabelecida por diversos pensadores. Entre eles destaca-se Kant, no século XVIII, inspirado nos ideais iluministas de autonomia da razão. Ele dizia: “Age de tal modo que a máxima de tua vontade possa valer sempre ao mesmo tempo como princípio de uma legislação universal”. Ou em outras palavras: “devo proceder sempre de maneira que eu possa querer também que a minha máxima se torne uma lei universal”.

Assim, se aquilo que eu determinar para mim puder se tornar uma lei moral para todos, terei a máxima liberdade de obedecer às leis que eu mesmo criei.

Para o materialismo histórico, no entanto, é evidente que a liberdade não é algo que se exerce no vazio, mas dentro das limitações impostas pelas circunstâncias. O exercício da liberdade é a luta para ampliar ou romper os limites das circunstâncias históricas. Pois, recordando as palavras de Marx, citadas anteriormente: “Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como quererem; não a fazem sob circunstância de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado”.

5.6 – LIBERDADE E LIVRE-ARBÍTRIO

Uma reflexão sobre a “liberdade” que pode escravizar.

Uma interessante distinção entre a liberdade, entendida como a característica que permite a moralidade humana, e o livre-arbítrio, que é o meio pelo qual o homem realiza  a sua liberdade.

Liberdade é a propriedade de um ser de realizar em plenitude a sua natureza. Um homem é tanto mais livre, quanto melhor pode realizar a natureza humana. Integral e harmonicamente. Livre-arbítrio é uma faculdade do ser livre, pela qual pode agir ou não agir; agir desta ou daquela maneira. O livre-arbítrio é um meio para realizar a liberdade, é um meio ambíguo. Bem empregado, liberta; mal empregado, escraviza. O homem que abusa do álcool ou do sexo usa mal do seu livre-arbítrio e perde sua liberdade, porque cai sob a tirania do vício. O individualismo reduz a liberdade ao livre-arbítrio. Por isto o individualista crê desempenhar-se de sua obrigação para com a sociedade, quando proclama uma liberdade puramente teórica, jurídica. Não se sente obrigado a colaborar concretamente para dar a todos os homens as possibilidades reais de ser homens, isto é, ser livres. Proclama a liberdade de ensino, mas não se preocupa por saber se milhões homens não podem ir à escola, porque nem sequer têm roupa para sair de casa.

5.7 – VIRTUDE: O USO DA LIBERDADE COM RESPONSABILIDADE

A consciência moral geralmente nos fala como uma voz interior que nos inclina para o caminho da virtude. A palavra virtude deriva do latim virtus e significa a qualidade ou a ação digna do homem. Ela designa, portanto, a prática constante do bem, correspondendo ao uso da liberdade com responsabilidade moral.

O oposto da virtude é o vício, que consiste na prática constante do mal, correspondendo ao uso da liberdade sem responsabilidade moral.

Mas, afinal, o que é essa responsabilidade? O termo vem do latim respondere e significa estar em condições de responder pelos atos praticados, isto é, de justificar suas ações. Neste sentido, a responsabilidade pressupõe uma relação entre a pessoa responsável e “algo” ao qual ou pelo qual ela responde.

Para Erich Fromm, a responsabilidade tem como base, num primeiro momento, a relação do homem com sua própria condição humana, isto é, com a realização de suas potencialidades de vida. Assim, “o bem é a afirmação da vida, o desenvolvimento das capacidades do homem. A virtude consiste em assumir a responsabilidade por sua própria existência. O mal constitui a mutilação das capacidades do homem; o vicio reside na irresponsabilidade perante si mesmo”.

6 – CAUSAS DA VIOLÊNCIA OU DA MALDADE

Quando se fala em violência ou maldade, uma das primeiras coisas em que pensamos é, por exemplo, no ladrão de casas e carros, no assassino sanguinário, enfim, nos inúmeros criminosos que agridem pessoas e assaltam o patrimônio alheio.

Menos comum é pensarmos na violência institucionalizada pelos sistemas de exploração social, isto é, a violência cruel dos salários de fome, da falta de moradia, do desamparo à saúde pública, do descaso pela educação, do preconceito racial etc. Violências surdas que oprimem milhões de pessoas “sem vez” e ainda “sem voz”.

Temos também a violência do homem contra a natureza, provocando graves desequilíbrios ecológicos. E por fim, há ainda a violência do homem contra si próprio, em que o suicídio figura como exemplo estremo.

Então, num sentido amplo, podemos dizer que a violência ou a maldade são formas de desrespeito, agressão e destruição praticadas pelo homem contra si próprio, contra outras pessoas (sociedade) ou contra a natureza.

Mas, conforme escreveu Hanna Arendt: “Qual é a causa do mal? Todo esse problema atormentou os filósofos, e suas tentativas de resolvê-lo nunca tiveram muito sucesso. O mal parece pertencer àquelas coisas sobre as quais até os homens mais cultos e inventivos não podem saber quase nada”.

É possível, porém, esquematicamente identificarmos pelo menos duas respostas antagônicas sobre as causas da violência ou maldade:

- Instintivista: afirma que a violência humana, caracterizada nas guerras, nos crimes, na opressão social, na conduta autodestrutiva, é provocada por instintos inatos decorrentes da fisiologia básica do homem. Esse instinto agressivo sempre busca sua descarga e aproveita as ocasiões favoráveis para manifestar-se. No grupo de pensadores partidários do instintivismo destacam-se Konrad Lorenz (criador da etologia) e Sigmund Freud (criador da psicanálise). Há, entretanto, inúmeras divergências entre as concepções de Freud e Lorenz.

- Sócio-ambientalista: nega que a violência seja um atributo inato do homem. Afirma que o comportamento humano (pacífico ou violento) é moldado pela influência do meio ambiente, isto é,  pelos fatores sociais, econômicos, políticos e culturais. Assim, as diferenças de conduta entre as pessoas corresponderiam às diferenças sócio-ambientais que teriam influenciado a personalidade dos indivíduos. No grupo sócio-ambientalista destaca-se a corrente dos psicólogos behavioristas (comportamento), fundada por J. B. Watson e desenvolvida por B. F. Skinner.

Para os instintivistas, portanto, o ser humano apenas reproduz os impulsos orgânicos da sua espécie. O homem repete o passado filogenético.

Já para os sócio-ambientalistas, o ser humano apenas reproduz a influência do seu meio ambiente. O homem repete o padrão da sociedade em que vive.

Não é preciso negarmos totalmente essas duas concepções para percebermos que são posição extremadas. Afinal, o homem não se resume a um títere, que só reage passivamente ao meio ambiente (sócio-ambientalismo). O homem também não é, apenas, um ser aprisionado pelas garras dos instintos filogenéticos (instintivismo). O homem é muito mais do que tudo isso. É um ser multideterminado: um sistema aberto! Um ser que age e reage e cria significados para sua vida.

7 – OS VALORES MORAIS

7.1 – INTRODUÇÃO

A polêmica entre o relativismo moral e os defensores de uma ética objetiva.

Um dos grandes problemas da filosofia moral pode ser resumido nas seguintes questões:

- Existem ou não valores morais válidos para todos os homens?

- Como justificar a classificação das ações em moralmente corretas ou incorretas,       justas ou injustas, boas ou más?

Entre aqueles que tentaram responder essas questões encontramos duas vertentes principais: a dos que defendem que toda moral é relativa e a dos que acreditam em valores éticos objetivos e universais. Vejamos então cada uma delas.

7.1.1 – Relativismo Ético: a tolerância como virtude

Admitindo uma multiplicidade de valores e códigos morais, alguns pensadores defendem a teoria do relativismo ético. Afirmam que não há uma base objetiva e universal sobre a qual se possa erguer um sistema moral único, válido para todos os homens.

Para o relativista ético, a consciência moral dos homens é formada pelo conjunto de princípios e valores herdados de cada cultura. Assim, o conteúdo da consciência moral varia no tempo e no espaço. O que é virtude para um pacifista moderno pode não ter sido para um guerreiro huno. E mesmo dentro de um grupo cultural com certa homogeneidade, – os cristãos, por exemplo – a consciência muda de época para época. A Igreja medieval julgava moralmente correto queimar um homem vivo em fogueiras por ele ter cometido atos que hoje, obviamente, não mereceriam do cristianismo essa mesma brutal condenação.

Percebe-se, então, que as sociedades humanas constroem no decorrer da história seus próprios códigos morais que, por sua vez, refletem os valores éticos dominantes em cada cultura. Assim, verificamos que há sociedades onde o valor dominante é a busca do prazer físico. Em outras, o valor moral mais importante é a glorificação religiosa de Deus. E ainda em outras, como a sociedade em que vivemos, o valor dominante se refere à conquista de poder econômico, sucesso pessoal e acúmulo de riqueza.

Para o relativismo ético, a moral é fruto do padrão cultural vigente. E este varia com a história e a geografia Então a ética torna se uma questão de ótica. Isto é, reflete a visão de mundo (códigos e juízos morais) compartilhada por uma sociedade, visão de mundo criadora de laços e normas para que a vida do grupo possa existir com certo grau de ordem, direção e solidariedade.

Admitindo a existência de várias formas de moralidade, o relativismo ético defende que a virtude não pode se restringir a um conteúdo rígido de normas ou a um mandamento unilateral. A virtude estaria na tolerância, no respeito pelos diferentes sistemas morais que, entre si, admitam conviver pacificamente.

Nesse sentido, imoral é, em primeiro lugar, o intolerante, que imagina ser ele o proprietário de um único critério moral para todas as formas de moralidade, e por isso o aplica a ferro e fogo sem levar em consideração as condições em que o juízo moral deva ser suspenso. Em segundo lugar, é o rigorista, aquele que pratica sua moral automaticamente, sem se dar conta da unilateralidade de seu ponto de vista.

7.1.2 – Ética Objetiva

Ao contrário do relativismo ético, existem filósofos que afirmam ser possível estabelecermos um conjunto de valores “objetivamente válidos” para os seres humanos.

Entre os defensores de uma ética objetiva podemos destacar pensadores que se inspiram no conceito de “natureza humana” e outros que buscam inspiração nos valores filosóficos cristãos.

KANT

Rousseau e Kant procuravam conciliar o dever e a idéia de uma natureza humana que precisa ser obrigada à moral. No entanto, ao enfatizarem a questão da natureza (natureza e natureza humana), tenderam a perder de vista o problema da relação entre o dever e a cultura.

Poderíamos nos perguntar: se a ética exige um sujeito consciente e autônomo, como explicar que a moral exija o cumprimento do dever, definido como um conjunto de valores, normas, fins e leis estabelecidos pela cultura? A resposta para esta questão foi trazida, no século XIX, por Georg Wilhelm Friedrich Hegel.

Hegel critica Rousseau e Kant por dois motivos: em primeiro lugar, por terem dado atenção à relação sujeito humano-natureza (a relação entre razão e paixão), esquecendo a relação sujeito humano-cultura e história. Em segundo lugar, por terem admitido a relação entre a ética e a sociabilidade dos seres humanos, mas tratando-a a partir de laços muito frágeis; como relações pessoais diretas entre indivíduos isolados ou independentes, quando deveriam tê-la tomado a partir dos laços fortes das relações sociais, fixadas pelas instituições sociais (família, sociedades civis, estado).

Nas relações pessoais entre indivíduos são determinadas a vida ética ou moral dos indivíduos. Somos, diz Hegel, seres históricos e culturais. Isso significa que, alem da nossa vontade individual subjetiva (Rousseau chamou de coração e Kant de razão prática), existe uma outra vontade, muito mais poderosa, que determina a nossa: a vontade objetiva, inscrita nas instituições ou na cultura.

Ser ético é ser livre, portanto, pôr-se de acordo com as regras morais de nossa sociedade, interiorizando-se.

Numa perspectiva algo semelhante à hegeliana encontra-se, no século XX, o filósofo francês Henri Bérgson. Como Hegel, Bérgson procura compreender a relação dever-cultura ou dever-história e, portanto, as mudanças nas formas e no conteúdo da moralidade. Distingue ele duas morais: a moral fechada e a moral aberta.

Segundo Hegel a moral aberta bergsoniana só pode acontecer quando a moralidade vigente está em crise, prestes a terminar, porque um novo período histórico-cultural está para começar. A moral fechada quando sentida como repressora e opressora, e a totalidade ética, quando percebida como contrária à subjetividade individual, indicam morais que são experimentadas agora como violência e não mais como realização ética.

O ser humano, sendo essencialmente racional, deve fazer com que sua razão ou inteligência conheça os fins morais, os meios morais e a diferença entre o bem e o mal, onde a vida ética depende da qualidade de nossa vontade e da disciplina para forçá-la rumo ao bem.

A ética, enquanto estudo dos juízos de apreciação da conduta humana, – os juízos de valor – encontra-se freqüentemente diante do conflito de Ter de decidir entre o que é o bem e o que é o mal. E como fazer essa distinção? De que critérios ou parâmetros dispomos para decidir sobre o bem e o mal? Esta questão, aparentemente difícil, pode ser esclarecida se considerarmos a própria natureza humana. Queremos dizer que algumas características são próprias de todos os homens. E quando refletimos sobre estas características, podemos compreender melhor porque ele se comporta de uma maneira ou de outra.

Ora, o homem se mostra, por natureza, um ser dividido: é racional, mas também é animal; e consciente, mas também é inconsciente; é público, mas também tem uma dimensão privada, particular. A questão ética apresenta-se, assim, como um conflito entre o que ele deve fazer e o que quer fazer. Por outro lado, esse ser contraditório, o homem, tem como condição básica estar extremamente insatisfeito com sua situação. Ele convive e vive muito mais com o que deve ser do que com o que ele é de fato.

E justamente porque desejamos realizar um projeto de vida diferente – a busca daquilo que queremos ser – é que recusamos a realidade de nossas imperfeições, bem como as imperfeições do sistema em que vivemos. Por isso contemplamos o universo ético, o universo da construção de um homem idealizado, bem como de uma sociedade ideal, mais humana, na qual igualdade e liberdade prevaleçam como valores supremos.

É porque queremos nos tornar mais humanos que buscamos construir uma sociedade possível, melhor do que a sociedade real. Por isso a dimensão moral do homem compreende, além da esfera individual, privada, a esfera pública, a vida social, a ação do cidadão. Pode-se concluir, então, que é somente na relação com os outros homens que os comportamentos individuais podem ser Avaliados como virtuosos ou não-virtuosos; como éticos ou não-éticos.

Para pensar a origem ética tem-se que pensar tanto a ordem racional como a ordem política e social. Isso significa que a dimensão ética, apesar de orientada pela razão individual, está sempre voltada para a vida pública dos homens.

A prática ética deve, portanto, fazer coincidir o plano do individual e do coletivo, uma vez que, para ser virtuosa, a ação deve visar o bem comum, indo ao encontro do interesse da coletividade.

BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA

BLANCHARD, Kenneth; PEALE, Normam Vincent. O Poder da Administração Ética. 2 ed., Rio de Janeiro: Record, 1994.

CAMARGO, Marculino. Ética na Empresa. Petrópolis, RJ: Vozes, 2006.

FERREL, O. C.; FRAEDRICH, John P.; FERREL, Linda. Ética empresarial: dilemas, tomadas de decisões e casos. Rio de Janeiro: Reichmann & Affonso, 2001.

GIALDI,  Silvestre. Ética: uma reflexão da filosofia moral. Caxias do Sul: São Miguel, 1989.

LEISINGER, Klaus M.; SCHMITT, Karin. Ética Empresarial. Responsabilidade global e gerenciamento moderno. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001.

PEGORARO, Olinto. Ética dos maiores mestres através da História. Petrópolis, RJ: Vozes, 2006.

PESSANHA, José Américo Motta. Vida e obra de Aristóteles: Tópicos dos argumentos sofísticos. São Paulo: Nova Cultural, 1987.


Comments

Leave a Reply

About The Author

Professor desde setembro de 1986, desempenhando suas funções na URCAMP, Campus Universitário de Bagé e Dom Pedrito, atualmente no Campus Universitário de Caçapava do Sul, RS.

Welcome To Our Site...

Nuvem de tags